"A inteligência e o caráter é o objetivo da verdadeira educação." Martin Luther King
terça-feira, 14 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
Leitura do bimestre: Conto & Crônica
O GATO PRETO
de EDGAR ALLAN POE
Não espero nem solicito o crédito
do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou
contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios
sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza
que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o
meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e
sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas
consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me,
destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em
mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão
menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre
uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade.
Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a
minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma
sequência bastante normal de causas e efeitos.
Já na minha infância era notado
pela docilidade e humanidade do meu caráter. Tão nobre era a ternura do meu
coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha
uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma
grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me
sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do
meu caráter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas
principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um
cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a
intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um
animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração
de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil
fidelidade do homem.
Casei jovem e tive a felicidade
de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à
minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de
me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos
pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.
Este último era um animal
notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto.
Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo
impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera
todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse
deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer
motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.
Plutão, assim se chamava o gato,
era o meu amigo predileto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de
comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que
conseguia impedir que me seguisse na rua.
A nossa amizade durou assim
vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu caráter sofreram uma
alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demônio
da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável,
mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem
brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência.
Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu
caráter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda
nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos
outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão,
quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.
Mas a doença tomava conta de mim
- pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão,
que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o
próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu caráter perverso.
Certa noite, ao regressar a casa,
completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que
o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência
do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demônios
imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma
original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que
demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu
corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal
pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a
vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.
Quando, com a manhã, me voltou a
razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei
um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas
era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível.
Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação
do ato.
Entretanto, o gato curou-se
lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso,
mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de
costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me
aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me
sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora
tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para
minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a
sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais
certo da existência da minha alma do que do fato que a perversidade é um dos
impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades
primárias, ou sentimentos, que deu uma direção ao caráter do homem. Quem se não
surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma ação néscia ou vil, pela
única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação perpétua,
pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só
porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para
minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por
oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me
forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao
inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao
pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a
saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o
porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado
razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo
um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a
colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita
misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.
Na noite do próprio dia em que
este ato cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As
cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com
grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do
incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram
destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.
Sou superior à fraqueza de
procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o
desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero
deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio,
visitei as ruínas. As paredes, à exceção de uma, tinham abatido por completo.
Esta exceção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que
estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a
cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à ação do fogo, fato
que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.
Próximo desta parede juntara-se
uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em
particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada
pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes.
Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície
branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma
precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.
Mal vi a aparição, pois nem podia
pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram
imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora
enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim
fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a
corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela
aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar.
A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na
substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas
e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.
Tendo assim satisfeito
prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o fato
extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda
impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do
fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de
sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar
a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora
frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante
parecido que preenchesse o seu lugar.
Uma noite, estava eu sentado meio
aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um
objeto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum
que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que
olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o
fato de não me ter apercebido mais cedo do objeto que estava em cima.
Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão
grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão
não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma
mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.
Quando lhe toquei, imediatamente
se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente
por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente
propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia
a seu respeito, nunca o tinha visto até então.
Continuei a acariciá-lo, e quando
me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me.
Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto
caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo
da minha mulher
Pela minha parte, não tardou em
surgir em mim uma antipatia por ele. Era exatamente o reverso do que eu
esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim
desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de
desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o
animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior ato de
crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas,
de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente,
muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir
silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.
O que aumentou, sem dúvida, o meu
ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para
casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos.
Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como
já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em
tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples
e mais puros.
Com a minha aversão pelo gato
parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma
pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me
sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos,
cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar,
metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras
compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos,
embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer,
em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde
já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.
Este medo não era exatamente o
receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo.
Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me
envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se
viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber.
Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de
pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o
estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta
marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas,
gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha
razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa
nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objeto que me repugna mencionar,
e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do
monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a
imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de
agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que
toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com
desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do
Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca,
oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me
deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos
cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa
sobre o meu rosto e o seu peso enorme, encarnação de um pesadelo que eu não
tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.
Sob a pressão de tormentos como
estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os
pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames
dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio
a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima
mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de
fúria a que então me abandonava cegamente.
Um dia acompanhou-me, por
qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos
forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o
que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na
minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi
um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria.
Mas o golpe foi sustido diabolicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido
pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no
crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.
Consumado este horrível crime,
entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo.
Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o
risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projetos se atropelaram no meu
cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos
pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão
da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como
qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por
fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi
emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade
Média às suas vítimas.
A cave parecia convir
perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os
acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma
argamassa grossa que a umidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais,
numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma
lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não
duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o
cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar
qualquer sinal suspeito.
Não me enganei nos meus cálculos.
Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de
colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela
posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura
o seu aspecto primitivo.
Usando de toda a precaução,
procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não
distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei,
vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal
de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei
em volta, triunfante, e disse para comigo: "Aqui, pelo menos, não foi
infrutífero o meu trabalho."
A seguir procurei o animal que
tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido
matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas
parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera
anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É
impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a
ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite,
e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi
bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.
Passaram-se o segundo e terceiro
dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O
monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria
a vê-lo!
Suprema felicidade a minha! A
culpa da ação tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios
que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas,
naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o crime,
surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que
procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do
esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse
na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela
terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu
coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a
cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um
lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para
partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse
suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para
tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.
- Senhores - disse por fim,
quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas
suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A
propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de
dizer qualquer coisa com a vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi,
até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já
embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste
momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que
tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida
esposa.
Ah!, que Deus me livre das garras
do arquidemônio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio,
quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio
abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou
num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um
bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia
vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demônios
no gozo da condenação.
Seria insensato falar dos meus
pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos
pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por
instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de
um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue,
apareceu ereto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas
fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja
astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco.
Eu tinha emparedado o monstro no
túmulo!
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O Homem Nu de Fernando Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar
a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece
que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada:
"Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
Extraído do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro.
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A ÚLTIMA CRÔNICA – Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim para tomar café. Na realidade estou
adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado.
Eu pretendia recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, que
a faz mais digna de ser vivida. Estou sem assunto.Lanço um último olhar fora de
mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se. A compostura
da humildade deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos,
laço na ca beça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à
mesa: mal ousa balançar as perninhas ou correr os olhos ao redor
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente
retirou do bolso, aborda o garçom e aponta um pedaço de bolo sob uma redoma de
vidro. A mãe limita-se a ficar observando. A meu lado, o garçom encaminha a
ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão,
larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro – apenas uma fatia
triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o
pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começam a comer? Vejo
que os três –pai, mãe e filha –obedecem, em torno à mesa, a um discreto ritual.
A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira alguma coisa. O pai
se mune de uma caixa de fósforos e espera. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente
na fatia de bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e
acende as velas.Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo na mesa
e sopra as velas. Imediatamente põe-se a bater palmas, cantando num balbucio, a
que os pais se juntam, discretos:” Parabéns a você...” Depois, a mãe recolhe as
velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra o bolo com as mãos e
pôe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com carinho – ajeita-lhe a
fitinha do cabelo, limpa o farelo do bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os
olhos pelo botequim, satisfeito e de súbito, dá comigo a observá-los. Nossos
olhos se encontram, ele se perturba, constrangido, vacila, ameaça abaixar a
cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse
sorriso.
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O
Ator - Luís
Fernando Veríssimo

-
Corta!
O
homem olha em volta, atônito. Descobre que sua casa não é uma casa, é um
cenário. Vem alguém e tira o jornal e a pasta das suas mãos. Uma mulher vem ver
se a sua maquilagem está bem e põe um pouco de pó no seu nariz.
Aproxima-se
um homem com um script na mão dizendo que ele errou uma das falas na hora de
beijar as crianças.
-
O que é isso? - pergunta o homem. - Quem são vocês? O que estão fazendo dentro
da minha casa? Que luzes são essas?
-
O que, enlouqueceu? - pergunta o diretor. - Vamos ter que repetir a cena.
Eu
sei que você está cansado, mas...
-
Estou cansado, sim senhor. Quero tomar meu banho e botar meu pijama.
Saiam
da minha casa. Não sei quem são vocês, mas saiam todos! Saiam!
O diretor fica parado de boca aberta.
Toda a equipe fica em silêncio, olhando para o ator. Finalmente o diretor
levanta a mão e diz:
-
Tudo bem, pessoal. Deve ser estafa. Vamos parar um pouquinho e...
-
Estafa coisa nenhuma! Estou na minha casa, com a minha... A minha família! O
que vocês fizeram com ela? Minha mulher! Os meus filhos!
O
homem sai correndo entre os fios e os refletores, à procura da família. O diretor
e um assistente tentam segurá-lo. E então ouve-se uma voz que grita:
-
Corta!
Aproxima-se
outro homem com um script na mão descobre que o cenário, na verdade, é um
cenário. O homem com um script na mão diz:
-
Está bom, mas acho que você precisa ser mais convincente.
-
Que-quem é você?
-
Como, quem sou eu? Eu sou o diretor. Vamos refazer esta cena. Você tem que
transmitir melhor o desespero do personagem. Ele chega em casa e descobre que
sua casa não é uma casa, é um cenário. Descobre que está no meio de um filme.
Não entende nada.
-
Eu não entendo...
-
Fica desconcertado. Não sabe se enlouqueceu ou não.
-
Eu devo estar louco. Isto não pode estar acontecendo. Onde está minha mulher?
Os meus filhos? A minha casa?
-
Assim está melhor. Mas espere até começarmos a rodar. Volte para a sua marca.
Atenção, luzes...
-
Mas que marca? Eu não sou personagem nenhum. Eu sou eu! Ninguém me dirige. Eu
estou na minha própria casa, dizendo as minhas próprias falas...
-
Boa, boa. Você está fugindo um pouco do script, mas está bom.
-
Que script? Não tem script nenhum. Eu digo o que quiser. Isto não é um filme. E
mais, se é um filme, é uma porcaria de filme. Isto é simbolismo, ultrapassado.
Essa de que o mundo é um palco, que tudo foi predeterminado, que não somos mais
do que atores... Porcaria!
-
Boa, boa. Está convincente. Mas espere começar a filmar. Atenção...
O
homem agarra o diretor pela frente da camisa.
-
Você não vai filmar nada! Está ouvindo? Nada! Saia da minha casa.
O
diretor tenta livrar-se. Os dois rolam pelo chão. Nisto ouve-se uma voz que grita:
-
Corta!
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quarta-feira, 1 de maio de 2013
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